Introdução — ou, a escolha de Annabella

Vamos começar descrevendo a relação com a energia elétrica do ponto de vista de um consumidor de médio porte. Considere uma empresa familiar fictícia, a Annabella Sandálias Ecológicas Ltda., que fabrica e vende calçados femininos feitos de sisal e outros materiais vegetais.

Joanna é a administradora da empresa e pretende modernizar a fábrica principal, instalando novos equipamentos que vão mais que dobrar sua capacidade de produção. Mas ela está preocupada com o custo da energia elétrica e, principalmente, com a previsibilidade dos gastos futuros, já que a empresa terá de arcar com o financiamento da modernização por alguns bons anos.

Com o maquinário atual, a Annabella já gasta mais de 40% do seu custo total com a conta de luz que paga mensalmente à distribuidora local. Se essa despesa aumentar, a Annabella pode não conseguir arcar com os custos do projeto de modernização. Joanna também acompanha os noticiários e fica sempre apreensiva quando escuta sobre crise hídrica e o aumento do preço da energia elétrica, ou quando as amigas falam sobre o risco de um apagão, mas não sabe exatamente em que medida isso afeta os negócios de Annabella.

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Nos últimos dias, Joanna recebeu uma oferta que parece excelente. A empresa Ensolarize Já Ltda. ofereceu à Annabella comprar energia solar e economizar 15% em sua conta de luz. “Parece bom demais para ser verdade!” É realmente possível que, durante todo o tempo em que Annabella comprou eletricidade da concessionária local, ela pudesse simplesmente ter comprado energia muito mais barata? E ainda por cima de fonte renovável?

Joanna precisa ser cautelosa com a administração da empresa. “Será que estou considerando todos os cenários possíveis ou é realmente um negócio irrecusável?” O contrato que a Ensolarize Já Ltda. ofereceu à Annabella exige que ela faça parte de um consórcio com várias outras empresas, por mais de dez anos. Joanna não sabe como estará o mercado até lá, nem o de calçados ou muito menos o de energia elétrica. Além disso, o advogado da empresa disse que ela precisará pedir a aprovação de todos os sócios para entrar nesse negócio, e que é importante saber quem são os outros consorciados e parceiros, pois pode haver riscos.

Joanna também leu no jornal que o Congresso pretende “taxar o sol”, e não sabe como isso pode prejudicar o retorno esperado do projeto.

Joanna decide estudar um pouco mais, e agradece à Ensolarize.

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Uma conferência sobre energia elétrica está acontecendo na cidade e Joanna decide participar para entender um pouco mais sobre o assunto.

Chamou a atenção de Joanna a palestra do CEO de uma comercializadora de energia elétrica, a VoltageXchange Comercializadora Ltda., que disse que todos com uma conta de luz acima de um determinado custo poderiam migrar para o mercado livre. Joanna já havia escutado sobre o mercado livre de energia elétrica, mas não sabe exatamente o que significa ou como funciona. Como a conta de luz da Annabella está bem acima daquele valor mencionado pelo CEO, Joanna percebe que essa pode ser uma opção para finalmente viabilizar a modernização da fábrica.

No dia seguinte, Joanna entra no site da VoltageXchange Comercializadora e se depara com a seguinte promessa: “Migre agora para o mercado livre e economize até 30% na conta de luz”.

“É mesmo?” Joanna sente a mesma apreensão de antes. “O que está acontecendo com este mercado para que as ofertas sejam tão atraentes?” Como não custa nada saber, Joanna preenche um formulário no site. Horas depois, ela está ao telefone com um representante da VoltageXchange, que lhe conta sobre o processo de migração e todos os benefícios caso a Annabella decida participar do mercado livre.

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Joanna trabalha na Annabella há mais de vinte anos e nesse tempo todo nunca viu uma sequer proposta para comprar energia elétrica. Mas nas últimas semanas já soube de duas opções, para economizar 15% e 30% com a energia elétrica! “Uow. Que outras opções será que existem?”

A notícia de que a Annabella está procurando entrar no mercado livre se espalha, e as propostas não param de chegar. Mas um tipo de proposta chama a atenção: empresas diferentes já ofereceram que a Annabella virasse sócia em usinas de geração, solares e eólicas, para que vire autoprodutora de energia elétrica.

Joanna acha a promessa comercial dessas empresas realmente atrativa. Além de um preço muito mais barato que o da distribuidora de energia elétrica, a Annabella não precisará pagar alguns encargos do setor, que são bastante relevantes. Por outro lado, o negócio é mais complexo. A Annabella precisará fazer um “M&A” (de Mergers & Acquisitions), e comprar ações de uma sociedade de propósito específico, ou, novamente, entrar em um consórcio.

De toda forma, os “economics” são muito bons para se ignorar. Joanna está vendo o que fazer para conseguir o melhor preço. Um leilão?

(continua…)

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