Introdução — ou, a escolha de Annabella #2

Não demora muito e Joanna sente a necessidade de ter mais pessoas na Annabella com um bom conhecimento de energia elétrica. Joanna decide que é importante que todos das principais áreas de negócios e suporte, como jurídico e compras, entendam bem o mercado, e a empresa passa a patrocinar cursos e treinamentos sobre o assunto.

As oportunidades não param de chegar e a equipe de Annabella precisa estar preparada para analisar as opções estrategicamente.

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A equipe da Annabella logo traz ideias para Joanna que ela nem estava considerando ainda. “O melhor desconto não é comprar!”, exclama um dos colaboradores, ao fazer uma apresentação detalhada de como as fábricas, lojas e escritórios da Annabella podem economizar reduzindo o consumo com projetos de eficiência energética.

Alguém sugere que Annabella instale medidores inteligentes que permitirão à empresa entender melhor seu consumo e ter mais ideias no futuro sobre como ser mais eficiente.

A ideia dos medidores inteligentes é algo que chama a atenção de Joanna. Ela já descobriu que o preço da energia no mercado livre varia a cada hora do dia, principalmente se a empresa comprou a menos ou a mais do que consumiu. Se Annabella entender como consome energia, e em que horários, ela poderá criar planos de como otimizar o trabalho nas fábricas para que a conta fique mais barata ou, até mesmo, para que tenha algum lucro vendendo o excedente.

As sugestões são todas calmamente discutidas e avaliadas por um grupo de pessoas que Joanna chama de “Comitê de Energia”. Nenhuma ideia é adotada às pressas, mas os retornos parecem ser promissores. Alguns desses projetos envolvem um pequeno investimento inicial na troca de lâmpadas, compra de equipamentos e assinatura de serviços tecnológicos, mas elas se pagam rápido, concluem.

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Joanna também contrata consultores e assessores externos especialistas no setor para auxiliar nessa transição. “Transição”, na verdade, que se tornará um trabalho constante e estrategicamente importante de compra de energia elétrica.

Joanna sabe, por exemplo, que algumas grandes empresas de diversos setores têm suas próprias comercializadoras de energia elétrica e que, no passado, pelo menos em determinados períodos, algumas mineradoras ganharam mais vendendo energia do que explorando minas.

Joanna também sabe que não há apenas lados bons na comercialização de energia elétrica. Muitas comercializadoras faliram nos últimos anos porque o volume de dinheiro que movimentam mensalmente é muito maior do que o resultado que geram, e a dependência de caixa e de crédito de terceiros é enorme.

Joanna decide que Annabella precisa de um pouco mais de experiência neste novo mercado antes de criar sua própria comercializadora, mas ela não descarta a ideia para um futuro próximo.

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Cabe ao Comitê de Energia de Annabella estudar a expectativa de consumo de energia elétrica da empresa e buscar formas de mitigar a variação de preços, pelo menos o suficiente para que Joanna possa se comprometer com o financiamento para a modernização da fábrica sem grandes preocupações.

A ideia vencedora é um contrato de longo prazo de compra e venda de energia elétrica diretamente com um gerador de eletricidade, que a equipa encontrou a um preço bastante atrativo. Eles conseguiram “casar” o prazo do financiamento com o prazo do contrato, e só vão começar a receber e pagar a energia elétrica daqui a um ano e meio, que é o mesmo prazo que Annabella precisa para instalar os novos equipamentos.

A geradora também ficou contente com o negócio, pois o prazo vai permitir construir um novo parque solar nesse ano e meio para atender Annabella e ainda vender excedentes, e pretende usar o contrato com Annabella para financiar a construção do parque. Todos ganham.

O tamanho do contrato é apenas o suficiente para dar a Annabella alguma previsibilidade dos custos futuros, deixando ainda algum espaço para que ela aproveite outras oportunidades que surgem neste mercado tão dinâmico.

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Joanna então continua com o projeto de modernização do parque industrial de Annabella. Em conversa com o banco que fará o financiamento, ela explica que o aumento da produção vai permitir atender mercados europeus, que valorizam calçados ecológicos, como os produzidos pela Annabella.

O banco sugere que Annabella comece a comprar energia em dólares, para se proteger das oscilações cambiais. “Interessante. Sempre ouvi dizer que no Brasil os contratos precisam ser em reais”. Joanna pede ao departamento jurídico de Annabella que analise essa opção e fica sabendo que há casos em que Annabella pode comprar eletricidade em dólares ou outra moeda estrangeira.

O próprio banco tem uma comercializadora e oferece um contrato de dólar com um bom preço para Annabella. Mais um negócio fechado.

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Pode parecer estranho começar um livro sobre energia com a história de uma empresa de calçados em vez de uma empresa de energia. Mas será mesmo que a Annabella não é uma empresa de energia? A energia elétrica é um insumo importante para Annabella, tanto quanto o sisal que ela usa para fabricar seus calçados, com a diferença de que praticamente todas as empresas precisam de energia e poucas empresas precisam de sisal.

(mais por vir…)

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